Núcleo de Estudos Ibéricos da UNIFESP-Guarulhos e Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa das Universidades de Lisboa CLEPUL, convidam para:
"Conversas literárias: Literatura e História na produção contemporânea de Língua Portuguesa"
Data: 7 de julho de 2010
Organização: Susana Ramos Ventura e Débora Leite David
Horário: das 15 às 18 horas
Local: Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura
Av. Paulista, 37 (Metrô Brigadeiro)
Bela Vista - São Paulo - Brasil
Telefones: (11) 3285.6986 / 3288.9447
(Não é preciso realizar inscrição previamente, atividade gratuita com certificado)
Programa:
15:00 h– Abertura do evento
15:15 h - Conferência
Professora Vania Pinheiro Chaves (Universidade de Lisboa/CLEPUL) - “Os homens dos pés redondos, de Antonio Torres como alegoria do Portugal Salazarista”. Apresentação: Débora Leite David.
16:40 h – Mesa Redonda
"Literatura e História"
Carla Carvalho Alves (USP) – “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho: um romance histórico contemporâneo”
Débora Leite David (USP) -“A costa dos murmúrios, de Lidia Jorge: a Guerra Colonial em perspectiva.”
Susana Ramos Ventura (UNIFESP/FAPESP) - “Ficções de ´gestos históricos´ em três autores contemporâneos: José Saramago, João Paulo Borges Coelho e Maria José Silveira”.
17:30 h – Com a palavra a escritora
“A História em minha obra”, com a escritora Maria José Silveira.
18:00 h – Encerramento
Apoio: Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura
terça-feira, 29 de junho de 2010
domingo, 20 de junho de 2010
Encontro na UCSC em 18 de junho e texto de Saramago
O segundo encontro na UCSC no dia 18 foi marcado pelo desaparecimento de José Saramago.
Conforme prometi, então, reproduzo o discurso de Saramago que comentamos e que foi pronunciado no dia 10 de dezembro de 1998, no Banquete que fez parte das solenidades de recepção do Prêmio Nobel de Literatura.
Um abraço
Susana
"Majestades, Alteza Real, Senhoras e Senhores,
Cumpriram-se hoje exactamente cinquenta anos sobre a assinatura da Declaração Universal de Direitos Humanos. Não têm faltado, felizmente, comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, com que rapidez a aten-ção se fatiga quando as circunstâncias lhe impõem que se aplique ao exa-me de questões sérias, não é arriscado prever que o interesse público por esta comece a diminuir a partir de amanhã. Claro que nada tenho contra actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desa-conselha, permita-se-me que pronuncie aqui umas quantas palavras mais.
Como declaração de princípios que é, a Declaração Universal de Direitos Humanos não cria obrigações legais aos Estados, salvo se as respectivas Constituições estabelecem que os direitos fundamentais e as liberdades nelas reconhecidos serão interpretados de acordo com a Declaração. Todos sabemos, porém, que esse reconhecimento formal pode acabar por ser desvirtuado ou mesmo denegado na acção política, na gestão econômica e na realidade social. A Declaração Universal é geralmente considerada pelos poderes econômicos e pelos poderes políticos, mesmo quando presumem de democráticos, como um documento cuja importância não vai muito além do grau de boa consciência que lhes proporcione.
Nestes cinquenta anos não parece que os Governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que, moralmente, quando não por força da lei, estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se no mundo, as desigual-dades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esqui-zofrénica humanidade que é capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte neste tempo do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os Governos, seja porque não sabem, seja porque não podem, seja porque não querem. Ou porque não lho permitam os que efectivamente governam, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a uma casca sem conteúdo o que ainda restava de ideal de democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Foi-nos proposta uma Declaração Universal de Direi-tos Humanos, e com isso julgámos ter tudo, sem repararmos que nenhuns direitos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspon-dem, o primeiro dos quais será exigir que esses direitos sejam não só reco-nhecidos, mas também respeitados e satisfeitos. Não é de esperar que os Governos façam nos próximos cinquenta anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra e a iniciativa. Com a mesma veemência e a mesma força com que reivindicar-mos os nossos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deve-res. Talvez o mundo possa começar a tornar-se um pouco melhor.
Não estão esquecidos os agradecimentos. Em Frankfurt, onde estava no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que disse foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel de Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos volto a agradecer. E agora quero também agradecer aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos e aos de agora : é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam, portanto. "
(José Saramago, discurso no Banquete de recepção do Prêmio Nobel de 1998).
Conforme prometi, então, reproduzo o discurso de Saramago que comentamos e que foi pronunciado no dia 10 de dezembro de 1998, no Banquete que fez parte das solenidades de recepção do Prêmio Nobel de Literatura.
Um abraço
Susana
"Majestades, Alteza Real, Senhoras e Senhores,
Cumpriram-se hoje exactamente cinquenta anos sobre a assinatura da Declaração Universal de Direitos Humanos. Não têm faltado, felizmente, comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, com que rapidez a aten-ção se fatiga quando as circunstâncias lhe impõem que se aplique ao exa-me de questões sérias, não é arriscado prever que o interesse público por esta comece a diminuir a partir de amanhã. Claro que nada tenho contra actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desa-conselha, permita-se-me que pronuncie aqui umas quantas palavras mais.
Como declaração de princípios que é, a Declaração Universal de Direitos Humanos não cria obrigações legais aos Estados, salvo se as respectivas Constituições estabelecem que os direitos fundamentais e as liberdades nelas reconhecidos serão interpretados de acordo com a Declaração. Todos sabemos, porém, que esse reconhecimento formal pode acabar por ser desvirtuado ou mesmo denegado na acção política, na gestão econômica e na realidade social. A Declaração Universal é geralmente considerada pelos poderes econômicos e pelos poderes políticos, mesmo quando presumem de democráticos, como um documento cuja importância não vai muito além do grau de boa consciência que lhes proporcione.
Nestes cinquenta anos não parece que os Governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que, moralmente, quando não por força da lei, estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se no mundo, as desigual-dades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esqui-zofrénica humanidade que é capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte neste tempo do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os Governos, seja porque não sabem, seja porque não podem, seja porque não querem. Ou porque não lho permitam os que efectivamente governam, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a uma casca sem conteúdo o que ainda restava de ideal de democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Foi-nos proposta uma Declaração Universal de Direi-tos Humanos, e com isso julgámos ter tudo, sem repararmos que nenhuns direitos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspon-dem, o primeiro dos quais será exigir que esses direitos sejam não só reco-nhecidos, mas também respeitados e satisfeitos. Não é de esperar que os Governos façam nos próximos cinquenta anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra e a iniciativa. Com a mesma veemência e a mesma força com que reivindicar-mos os nossos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deve-res. Talvez o mundo possa começar a tornar-se um pouco melhor.
Não estão esquecidos os agradecimentos. Em Frankfurt, onde estava no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que disse foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel de Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos volto a agradecer. E agora quero também agradecer aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos e aos de agora : é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam, portanto. "
(José Saramago, discurso no Banquete de recepção do Prêmio Nobel de 1998).
quinta-feira, 17 de junho de 2010
SESC São Caetano do Sul e USCS – Fernando Pessoa e José Saramago. 16 e 18 de junho de 2010.
Nosso encontro de ontem no Campus 2 da USCS foi muito produtivo. Fizemos um percurso pelas obras de Fernando Pessoa e José Saramago, sob o ponto de vista da invisibilidade social e linguística. Aí está nosso percurso de textos para quem desejar fazer ou refazer a “viagem”.
Abraço
Susana
“Mar português” – Mensagem – Fernando Pessoa
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
“Ela canta, pobre ceifeira” – Fernando Pessoa
Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
“Poema em Linha Recta” – Álvaro de Campos
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
“Poema XXXII” – O guardador de rebanhos – Alberto Caeiro
Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu – não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa – existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?
Memorial do Convento – Trecho – José Saramago
Vão outros Josés, e Franciscos, e Manuéis, serão menos os Baltasares, e haverá Joões, Álvaros, Antónios e Joaquins, talvez Bartolomeus, mas nenhum o tal, e Pedros, e Vicentes, e Bentos, Bernardos e Caetanos, tudo quanto é nome de homem vai aqui, tudo quanto é vida também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, já que não podemos falar-lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino; Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís, Marcolino, Nicanor, Onofre, Paulo, Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias, uma letra de cada um para ficarem todos representados, porventura nem todos estes nomes serão os próprios do tempo e do lugar, menos ainda da gente, mas, enquanto não se acabar quem trabalhe, não se acabarão os trabalhos, e alguns destes estarão no futuro de alguns daqueles, à espera de quem vier a ter o nome e a profissão. De quantos pertencem ao alfabeto da amostra e vão a Pêro Pinheiro [...]
“Fala do Velho do Restelo ao Astronauta” – José Saramago
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal soletramos, de olhos tensos,
Maravilhas de espaço e de vertigem:
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalme são brinquedos),
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome.
Abraço
Susana
“Mar português” – Mensagem – Fernando Pessoa
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
“Ela canta, pobre ceifeira” – Fernando Pessoa
Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
“Poema em Linha Recta” – Álvaro de Campos
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
“Poema XXXII” – O guardador de rebanhos – Alberto Caeiro
Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu – não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa – existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?
Memorial do Convento – Trecho – José Saramago
Vão outros Josés, e Franciscos, e Manuéis, serão menos os Baltasares, e haverá Joões, Álvaros, Antónios e Joaquins, talvez Bartolomeus, mas nenhum o tal, e Pedros, e Vicentes, e Bentos, Bernardos e Caetanos, tudo quanto é nome de homem vai aqui, tudo quanto é vida também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, já que não podemos falar-lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino; Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís, Marcolino, Nicanor, Onofre, Paulo, Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias, uma letra de cada um para ficarem todos representados, porventura nem todos estes nomes serão os próprios do tempo e do lugar, menos ainda da gente, mas, enquanto não se acabar quem trabalhe, não se acabarão os trabalhos, e alguns destes estarão no futuro de alguns daqueles, à espera de quem vier a ter o nome e a profissão. De quantos pertencem ao alfabeto da amostra e vão a Pêro Pinheiro [...]
“Fala do Velho do Restelo ao Astronauta” – José Saramago
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal soletramos, de olhos tensos,
Maravilhas de espaço e de vertigem:
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalme são brinquedos),
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome.
SESC São Caetano do Sul e USCS – Fernando Pessoa e José Saramago. 16 e 18 de junho de 2010.
Nosso encontro de ontem no Campus 2 da USCS foi muito produtivo. Fizemos um percurso pelas obras de Fernando Pessoa e José Saramago, sob o ponto de vista da invisibilidade social e linguística. Aí está nosso percurso de textos para quem desejar fazer ou refazer a “viagem”.
Abraço
Susana
“Mar português” – Mensagem – Fernando Pessoa
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
“Ela canta, pobre ceifeira” – Fernando Pessoa
Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
“Poema em Linha Recta” – Álvaro de Campos
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
“Poema XXXII” – O guardador de rebanhos – Alberto Caeiro
Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu – não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa – existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?
Memorial do Convento – Trecho – José Saramago
Vão outros Josés, e Franciscos, e Manuéis, serão menos os Baltasares, e haverá Joões, Álvaros, Antónios e Joaquins, talvez Bartolomeus, mas nenhum o tal, e Pedros, e Vicentes, e Bentos, Bernardos e Caetanos, tudo quanto é nome de homem vai aqui, tudo quanto é vida também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, já que não podemos falar-lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino; Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís, Marcolino, Nicanor, Onofre, Paulo, Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias, uma letra de cada um para ficarem todos representados, porventura nem todos estes nomes serão os próprios do tempo e do lugar, menos ainda da gente, mas, enquanto não se acabar quem trabalhe, não se acabarão os trabalhos, e alguns destes estarão no futuro de alguns daqueles, à espera de quem vier a ter o nome e a profissão. De quantos pertencem ao alfabeto da amostra e vão a Pêro Pinheiro [...]
“Fala do Velho do Restelo ao Astronauta” – José Saramago
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal soletramos, de olhos tensos,
Maravilhas de espaço e de vertigem:
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalme são brinquedos),
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome.
Abraço
Susana
“Mar português” – Mensagem – Fernando Pessoa
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
“Ela canta, pobre ceifeira” – Fernando Pessoa
Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
“Poema em Linha Recta” – Álvaro de Campos
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
“Poema XXXII” – O guardador de rebanhos – Alberto Caeiro
Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu – não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa – existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?
Memorial do Convento – Trecho – José Saramago
Vão outros Josés, e Franciscos, e Manuéis, serão menos os Baltasares, e haverá Joões, Álvaros, Antónios e Joaquins, talvez Bartolomeus, mas nenhum o tal, e Pedros, e Vicentes, e Bentos, Bernardos e Caetanos, tudo quanto é nome de homem vai aqui, tudo quanto é vida também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, já que não podemos falar-lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino; Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís, Marcolino, Nicanor, Onofre, Paulo, Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias, uma letra de cada um para ficarem todos representados, porventura nem todos estes nomes serão os próprios do tempo e do lugar, menos ainda da gente, mas, enquanto não se acabar quem trabalhe, não se acabarão os trabalhos, e alguns destes estarão no futuro de alguns daqueles, à espera de quem vier a ter o nome e a profissão. De quantos pertencem ao alfabeto da amostra e vão a Pêro Pinheiro [...]
“Fala do Velho do Restelo ao Astronauta” – José Saramago
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal soletramos, de olhos tensos,
Maravilhas de espaço e de vertigem:
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalme são brinquedos),
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Peri e Ceci - em versão marchinha de Carnaval!
Olá gente,
Achei no youtube a Marchinha "Touradas em Madri", do João de Barro (Braguinha) de que falamos na terça-feira. 71 anos após a publicação de "O Guarani" eis Peri e Ceci redivivos em 1938, na letra que fala da Guerra Civil Espanhola (1936-1939).
Quem quiser conferir - a gravação é de 1957 e é preciosa - Trio Irakitan com a participação de Grande Otelo (em referências ao Bumba-meu-boi) - que mistura, hem?
O endereço:
http://www.youtube.com/watch?v=PFE2UNSu5Hs
Para quem preferir ouvir a genial Carmen Miranda interpretando a mesma Marchinha, em época mais próxima à da composição, vale ir até
http://www.youtube.com/watch?v=8X__-qUuiig
Susana
Achei no youtube a Marchinha "Touradas em Madri", do João de Barro (Braguinha) de que falamos na terça-feira. 71 anos após a publicação de "O Guarani" eis Peri e Ceci redivivos em 1938, na letra que fala da Guerra Civil Espanhola (1936-1939).
Quem quiser conferir - a gravação é de 1957 e é preciosa - Trio Irakitan com a participação de Grande Otelo (em referências ao Bumba-meu-boi) - que mistura, hem?
O endereço:
http://www.youtube.com/watch?v=PFE2UNSu5Hs
Para quem preferir ouvir a genial Carmen Miranda interpretando a mesma Marchinha, em época mais próxima à da composição, vale ir até
http://www.youtube.com/watch?v=8X__-qUuiig
Susana
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Listas dos vestibulares 2010 e do ENADE
Saíram as lista de livros pedidos para os vestibulares 2010 da USP e UNICAMP e também aquela do ENADE (para os estudantes de Letras que, concluindo a faculdade, deverão fazer o exame.
Para USP e UNICAMP, segue a lista:
1 - Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente
2 - Iracema, de José de Alencar
3 - Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida
4 - Dom Casmurro, de Machado de Assis
5 - A cidade e as serras, de Eça de Queirós
6 - O Cortiço, de Aluísio Azevedo
7 - Vidas Secas, de Graciliano Ramos
8 - Capitães da Areia, de Jorge Amado
9 - Nova antologia poética, de Vinícius de Moraes
Saíram "A rosa do povo", "Poesia completa de Alberto Caeiro" e "Sagarana", entraram "O Cortiço", "Capitães da Areia" e a Antologia do Vinícius.Vejo nisso pontos positivos - a revalorização de Jorge Amado, por exemplo. Mas fico triste com a perda de Fernando Pessoa e do maravilhoso Drummond (se eu disser que não me conformo de perder o "Sagarana" também é verdade, mas que era um livro dificílimo isso era).
Quanto ao ENADE, alguns títulos me surpreenderam (bem), outras ausências me deixaram chateada - fiz comentários no meu blog navegareprecisomasaiquepreguica.blogspot.com
No entanto, tenho de falar MESMO sobre meu prazer em ver incluído o "Mayombe" do escritor angolano Pepetela. "Mayombe" é um grande livro e merece ser lido (só gostaria mesmo que a lista tivesse também, pelo menos, Mia Couto).
Segue a lista completa:
I - Poesia:
a) Castro Alves;
b) Manuel Bandeira;
c) Carlos Drummond de Andrade;
d) João Cabral de Mello Neto;
e) Mário de Andrade;
f) Cecília Meireles;
g) Jorge de Lima;
h) Ana Cristina César;
i) Camões (lírico);
j) Fernando Pessoa;
k) Baudelaire (As flores do mal).
I - Prosa:
a) José de Alencar - Senhora;
b) Aluísio de Azevedo - O cortiço;
c) Machado de Assis - Quincas Borba;
d) Guimarães Rosa - Primeiras Estórias;
e) Graciliano Ramos - Vidas secas;
f) Clarice Lispector - Hora da Estrela;
g) Jorge Amado - Capitães da Areia;
h) Lygia Fagundes Telles - As horas nuas;
i) Eça de Queiroz - O Primo Basílio;
j) José Saramago - Memorial do Convento;
k) Gabriel García Márquez - O amor nos tempos do cólera;
l) Júlio Cortázar - Contos completos;
m) Gustave Flaubert - Madame Bovary;
n) Miguel de Cervantes - Dom Quixote;
o) Émile Zola - Germinal;
p) Pepetela (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos) -
Mayombe;
III - Teatro
a) Ariano Suassuna - O santo e a porca;
b) Dias Gomes - O pagador de promessas;
c) William Shakespeare - Romeu e Julieta.
O que vocês acharam?
Susana
Para USP e UNICAMP, segue a lista:
1 - Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente
2 - Iracema, de José de Alencar
3 - Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida
4 - Dom Casmurro, de Machado de Assis
5 - A cidade e as serras, de Eça de Queirós
6 - O Cortiço, de Aluísio Azevedo
7 - Vidas Secas, de Graciliano Ramos
8 - Capitães da Areia, de Jorge Amado
9 - Nova antologia poética, de Vinícius de Moraes
Saíram "A rosa do povo", "Poesia completa de Alberto Caeiro" e "Sagarana", entraram "O Cortiço", "Capitães da Areia" e a Antologia do Vinícius.Vejo nisso pontos positivos - a revalorização de Jorge Amado, por exemplo. Mas fico triste com a perda de Fernando Pessoa e do maravilhoso Drummond (se eu disser que não me conformo de perder o "Sagarana" também é verdade, mas que era um livro dificílimo isso era).
Quanto ao ENADE, alguns títulos me surpreenderam (bem), outras ausências me deixaram chateada - fiz comentários no meu blog navegareprecisomasaiquepreguica.blogspot.com
No entanto, tenho de falar MESMO sobre meu prazer em ver incluído o "Mayombe" do escritor angolano Pepetela. "Mayombe" é um grande livro e merece ser lido (só gostaria mesmo que a lista tivesse também, pelo menos, Mia Couto).
Segue a lista completa:
I - Poesia:
a) Castro Alves;
b) Manuel Bandeira;
c) Carlos Drummond de Andrade;
d) João Cabral de Mello Neto;
e) Mário de Andrade;
f) Cecília Meireles;
g) Jorge de Lima;
h) Ana Cristina César;
i) Camões (lírico);
j) Fernando Pessoa;
k) Baudelaire (As flores do mal).
I - Prosa:
a) José de Alencar - Senhora;
b) Aluísio de Azevedo - O cortiço;
c) Machado de Assis - Quincas Borba;
d) Guimarães Rosa - Primeiras Estórias;
e) Graciliano Ramos - Vidas secas;
f) Clarice Lispector - Hora da Estrela;
g) Jorge Amado - Capitães da Areia;
h) Lygia Fagundes Telles - As horas nuas;
i) Eça de Queiroz - O Primo Basílio;
j) José Saramago - Memorial do Convento;
k) Gabriel García Márquez - O amor nos tempos do cólera;
l) Júlio Cortázar - Contos completos;
m) Gustave Flaubert - Madame Bovary;
n) Miguel de Cervantes - Dom Quixote;
o) Émile Zola - Germinal;
p) Pepetela (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos) -
Mayombe;
III - Teatro
a) Ariano Suassuna - O santo e a porca;
b) Dias Gomes - O pagador de promessas;
c) William Shakespeare - Romeu e Julieta.
O que vocês acharam?
Susana
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Roda de Leitura quarta-feira, 13 de agosto!

Amanhã, quarta-feira, Roda de Leitura sobre a obra de Marina Colasanti no SESC Pinheiros. Oito da noite na Sala de Oficinas do segundo andar. A atividade é gratuita.Vamos continuar o papo da semana passada?
No meu blog pessoal (www.navegareprecisomasaiquepreguica.blogspot.com) postei hoje um mini-conto, para a gente ir esquentando os tamborins!
Susana
sábado, 9 de agosto de 2008
Encontro com a Literatura - Marina Colasanti
Nosso encontro com Marina Colasanti, na primeira foto que recebi da nossa noite de conversa. A foto foi enviada pela Angela Fialho e mostra a turma da Faculdade de Taboão da Serra que veio especialmente para conhecer a Marina e sua obra.
Obrigada a todos os que vieram para conhecer e conversar com a Marina - para mim foi uma noite muito especial, e a presença da turma do curso de Blogs e de outros amigos de várias "praias" ajudou muito a que eu me sentisse em casa!
Espero comentários de vocês sobre o Encontro. Aceito sugestões, reclamações e também abraços!
Susana
domingo, 3 de agosto de 2008
Ainda a conversa com Fabrício Carpinejar

Outro ponto interessante tocado por Carpinejar, em resposta à pergunta do Adrebal, foi sobre o uso da imagem que ele faz no blog.
Para Carpinejar, a imagem estabelece conexão ou diálogo com o texto. Não "ilustra" o texto e sim toca nele de maneira a iluminar algum aspecto do próprio texto ou estabelecer um contato com algo sequer tocado pela escrita.
Isso tem me feito pensar muito. O que vocês acham?
Susana
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Conversa com Carpinejar

No final da apresentação de "O dom do ciúme", em que o blogueiro Fabrício Carpinejar fez importante participação, pudemos discutir com esse genial escritor do Rio Grande do Sul a importância do blog para a produção literária dele.
De acordo com o poeta gaúcho, pelo blog ele soube lapidar sua escrita, torná-la "simples", no sentido de achar um meio de expressão adequado, de leveza precisa, para os assuntos abordados por ele. Também nos disse que, em seu blog, ele tem a facilidade de produzir mais as suas crônicas do que seus poemas. Portanto, a sua página pessoal, serve-lhe como um espaço de testemunho de sua vida, de sua memória.
Carpinejar falou sobre a humildade que o blog o obrigou a ter: escrever fácil, postar sempre, superar a ansiedade de ver nenhum comentário chegando... por bom tempo.
Disse para a gente que o blog é o espaço para o trabalho de textos que estão rolando no trabalho do escritor - e que assim não se corre o risco da falta de assunto.
Os alunos do nosso curso puderam lhe fazer inúmeras perguntas. Enfim, foi um momento muito especial, pelo qual pudemos aprender um pouco mais sobre a escrita no universo dos blogs.
Alexandre e Susana
terça-feira, 29 de julho de 2008
(Im)possível Pasárgada
Tantas vezes em nossos encontros discutimos os conceitos de autoria e também falamos sobre "citações", "diálogos", "intertextos" na literatura e na arte. Ninguém cria do nada, mas os níveis de diálogo são muito variáveis.
Uma questão do Paulo Neuman nos levou a pensar na Pasárgada de Manuel Bandeira. Na ocasião eu contei sobre os diálogos com o poema de Bandeira "Vou-me embora prá Pasárgada" em território cabo-verdiano.Cabo Verde, arquipélago marcado pela seca permanente, de onde se é forçado a partir. Neste contexto, Pasárgada ganha outros contornos... Abaixo, uma dessas "respostas" cabo-verdianas à evasão sonhada por Bandeira:
ANTI-EVASÃO
(Ovídio Martins)
"Pedirei
Suplicarei
Chorarei
Não vou para Pasárgada
Atirar-me-ei ao chão
e prenderei nas mãos convulsas
ervas e pedras de sangue
Não vou para Pasárgada
Gritarei
Berrarei
Matarei
Não vou para Pasárgada"
Comentários?
Susana
Uma questão do Paulo Neuman nos levou a pensar na Pasárgada de Manuel Bandeira. Na ocasião eu contei sobre os diálogos com o poema de Bandeira "Vou-me embora prá Pasárgada" em território cabo-verdiano.Cabo Verde, arquipélago marcado pela seca permanente, de onde se é forçado a partir. Neste contexto, Pasárgada ganha outros contornos... Abaixo, uma dessas "respostas" cabo-verdianas à evasão sonhada por Bandeira:
ANTI-EVASÃO
(Ovídio Martins)
"Pedirei
Suplicarei
Chorarei
Não vou para Pasárgada
Atirar-me-ei ao chão
e prenderei nas mãos convulsas
ervas e pedras de sangue
Não vou para Pasárgada
Gritarei
Berrarei
Matarei
Não vou para Pasárgada"
Comentários?
Susana
"Biblioteca em Fogo" (1974)
Mudei agora a fotografia que aparece por trás do título de nosso blog. "Biblioteca em Fogo" é um quadro da pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva, terminado em 1974. Penso que é um bom símbolo do cruzamento de linguagens tão importante para o Blog.Vieira da Silva fez uma série de pinturas em que as bibliotecas são o tema central - prova da importância dos livros para a vida desta que foi uma das maiores artistas plásticas do Século XX.
O que vocês acharam da escolha?
Susana
O que vocês acharam da escolha?
Susana
domingo, 27 de julho de 2008
Fim do curso - Alexandre e Susana bem felizes!
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Convite para Rodas de Leitura em Agosto
No Rodas de Leitura de Agosto vamos receber a escritora Marina Colasanti em 06 de agosto para um bate-papo recheado de boas histórias. Na semana seguinte, 13 de agosto, vamos juntos ler textos selecionados e discutir a obra multi-facetada da autora.
Sempre às 20 horas no segundo andar do SESC Pinheiros. GRÁTIS.
Peço a todos que venham e divulguem para seu grupo de amigos - não podemos perder essa!
Susana
O Dom do Ciúme - Sexta aula do curso Blogs Literários

Não resisto a começar hoje a refletir sobre o espetáculo de ontem à noite no SESC Pinheiros, "O Dom do Ciúme".
Fomos todos os da turma do Curso Blogs Literários assistir ao "Sarau/show/aula" - como se queira chamar o espetáculo - que uniu em diálogo música, literatura, performance e arte gráfica.
Foi um GRANDE fechamento para nosso curso pelo clima que senti do grupo.Para mim foi ESPECIAL.
"Dom Casmurro" revisitado de uma maneira inovadora e moderna foi uma experiência muito produtiva.
Como o nosso grupo é bem misto, as pessoas curtiram os vários aspectos da apresentação: o trabalho gráfico, projetado em telão, a música, a leitura dramática feita pelos escritores, a performance. Apresentou-se, em realidade, a oportunidade para vermos em exercício o cruzamento de linguagens que é tão importante para o Blog e que já tínhamos discutido.
Ao final, fomos todos conversar com o Carpinejar, que bateu um papo com a turma toda, falou do Blog em geral, respondeu às nossas questões (o Alexandre vai sintetizar um pouco nossa conversa e postar para a gente).
Não quero monopolizar o relato. Por favor, postem comentários para eu poder montar um painel com a opinião de todos, tá bem?
Susana
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